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Da guerra a máximos históricos o que marcou os mercados no 1.º semestre de 2026

Da guerra a máximos históricos: o que marcou os mercados no 1.º semestre de 2026

O primeiro semestre de 2026 ficará registado como um dos períodos mais intensos dos últimos anos. Foi o semestre em que a nova ordem geopolítica deixou de ser um exercício teórico para se tornar uma realidade tangível, obrigando governos, bancos centrais e investidores a reposicionarem-se num mundo cada vez mais dominado por relações de força.

Começou com a intervenção norte-americana na Venezuela, passou por uma guerra no Médio Oriente que bloqueou o Estreito de Ormuz durante quatro meses e terminou com um entendimento diplomático que devolveu o petróleo praticamente aos níveis anteriores ao conflito. Pelo meio, os bancos centrais passaram de um cenário de potenciais cortes de taxas para um contexto de endurecimento monetário, enquanto os mercados acionistas voltaram a demonstrar uma capacidade impressionante de absorver choques, repetindo o padrão observado em março de 2025: correção, recuperação rápida e novos máximos históricos.

Eis os principais momentos que marcaram o semestre, mês a mês:

Janeiro: o sinal da mudança.

A intervenção norte-americana na Venezuela e a detenção de Nicolás Maduro foram a primeira manifestação de que a administração Trump 2.0 estava disposta a exercer controlo estratégico sobre países-chave no tabuleiro energético. Em simultâneo, o tema da Gronelândia expôs as fraturas transatlânticas e confirmou o regresso das tarifas como instrumento político. Em Davos, o discurso do primeiro-ministro canadiano Mark Carney, sintetizou o enquadramento: o enfraquecimento da ordem internacional nas últimas décadas, foi substituído por um mundo a funcionar como um sistema de forças. Os mercados responderam com uma rotação clara – saída das megacaps norte-americanas, ganhos expressivos nos mercados emergentes e uma valorização de quase 9% no índice de matérias-primas.

Fevereiro: os sinais acumulam-se.

Ao longo de quatro semanas acumularam-se sinais: concentração de meios militares no Médio Oriente, prazos dados ao Irão, conversações em Omã, e valorização do preço do petróleo em 8%. Sinais que formavam uma trajetória inequívoca. No último dia do mês, os Estados Unidos e Israel conduziram ataques militares conjuntos ao Irão. As retaliações foram imediatas e afetaram os seis países do Golfo, a Jordânia, o Iraque e o Chipre. Um conflito que nasceu bilateral tornou-se, em quarenta e oito horas, regional.

Março: o choque económico.

O Brent negociou quase sempre acima dos 100 dólares por barril ao longo do mês, chegando a tocar os 120 dólares em momentos de maior tensão – com o prémio de risco geopolítico a dominar a formação de preço. O Estreito de Ormuz foi efetivamente bloqueado e o impacto acumulou-se muito além do preço do petróleo: cerca de um terço dos fertilizantes mundiais esteve retido, com efeitos sobre gás natural, fosfatos e muita da cadeia de abastecimento da economia global.

Os mercados obrigacionistas falharam no seu papel tradicional de refúgio. E, no mercado acionista, o S&P 500 aproximou-se de território de correção, tal como o STOXX 600. O setor da Energia foi o único destaque positivo. Já o ouro desvalorizou cerca de 10%, pressionado pela liquidação generalizada, pelo súbito refúgio para o dólar (numa ótica do sistema petrodólar) e pela expectativa de taxas mais altas. Foi também, o mês em que a palavra estagflação regressou ao debate.

Abril: uma recuperação inesperada.

Com o conflito por resolver e o Estreito de Ormuz ainda bloqueado, os mercados acionistas iniciaram uma das mais impressionantes recuperações em “V”. Os prémios de risco corporativos comprimiram, o mercado obrigacionista recuperou terreno e o Nasdaq subiu cerca de quinze por cento. Quase noventa por cento das empresas do S&P 500 que reportaram bateram as estimativas. O mercado não estava a ignorar a guerra – estava ancorado numa força mais poderosa do que qualquer ruído externo: a resiliência dos resultados empresariais e o momentum estrutural da inteligência artificial (AI). A dinâmica do mercado estava positiva.

Maio: FEMO – Fabulous Earnings Momentum.

O paralelo com o FOMO (Fear Of Missing Out) da bolha tecnológica de 2000 é deliberado, mas a mensagem é oposta. Não é medo de ficar de fora, são os resultados a justificarem as valorizações. A obsessão concentrou-se nos semicondutores de memória, com a sul-coreana SK Hynix e a norte-americana Micron a ultrapassarem o trillion de dólares de capitalização de mercado. A mensagem: quem controla a memória, controla o ritmo de expansão da IA. Foi também o mês em que Kevin Warsh foi confirmado como 17.º presidente da Reserva Federal, herdando uma das conjunturas mais exigentes em décadas. Na cimeira Trump-Xi em Pequim, ficou claro que a China se apresenta como o vértice central de um novo paradigma geopolítico.

Junho: o regresso ao ponto de partida.

Um memorando de entendimento entre Washington e Teerão, com compromisso de acordo final em sessenta dias. O Brent terminou o mês perto dos 72 dólares por barril – exatamente os níveis de 27 de fevereiro, véspera dos ataques. Em quatro meses, o mercado absorveu um dos maiores choques energéticos da história recente e devolveu-o quase por inteiro. Destaque ainda para as reuniões dos principais bancos centrais: junho, foi o mês em que o BCE regressou às subidas de taxas pela primeira vez em três anos; o Banco do Japão subiu para o nível mais alto desde 1995, e a FED de Warsh entregou o seu primeiro hawkish hold – sinalizando um compromisso estrutural com a estabilidade de preços.

Conclusão

O primeiro semestre de 2026 confirmou que o contexto em que os mercados operam mudou de forma estrutural. O petróleo foi o ativo mais volátil do período, com oscilações superiores a 55% em poucas semanas; o ouro perdeu protagonismo; e o dólar terminou o semestre reforçado pela postura mais agressiva da Reserva Federal. Ao mesmo tempo, a confiança dos consumidores manteve-se em níveis historicamente baixos, a inflação continuou desconfortavelmente elevada.

Ainda assim, os mercados acionistas voltaram a atingir máximos históricos, apoiados em três pilares: a força dos resultados empresariais, a diversificação geográfica e setorial, e o entusiasmo em torno da Inteligência Artificial e dos semicondutores.

Para quem tem um PPR, este semestre é um bom lembrete de porque é que o horizonte temporal e a gestão profissional fazem diferença: quem manteve, e reforçou, a estratégia de longo prazo, sem reagir à volatilidade de curto prazo, acabou por beneficiar da recuperação e dos novos máximos.